LIÇÃO 1: HIRAGANA

Pode-se dizer que o sistema de escrita japonesa possui quatro meios de expressão: Hiragana, Katakana (que conjuntamente formam o “Kana”), Kanji e Roomaji. Por hora, nesta primeira lição aprenderemos o Hiragana, o silabário básico.

1.1. POR QUE COMEÇAR PELA ESCRITA?

A fim de aprender japonês, o melhor caminho é começar a partir dos caracteres. Talvez algumas pessoas não concordem com isso, porque se pensarmos na maneira como os bebês começam a aprender a sua língua materna, eles primeiramente pronunciam palavras, então só depois começam a aprender a escrita. Mas para os que aprendem japonês como língua estrangeira, este método é um pouco difícil.

Em primeiro lugar, por que para um não-nativo é muito difícil encontrar toneladas de vocábulos em seu cotidiano como acontece com os bebês japoneses, a menos que viva no Japão ou tenha muitos amigos japoneses "conversadores".

Em segundo lugar, por que uma vez que aprendemos a nossa língua materna, torna-se quase impossível memorizar palavras estrangeiras com sons apenas. Por esta razão, usar todos os cinco sentidos tanto quanto possível é a forma mais eficaz de obter o que se deseja. Então, por favor, não use apenas seus ouvidos. Use seus olhos para ver os caracteres. Treine sua boca para pronunciá-los. Estimule o seu cérebro para imaginá-los mesmo quando você não estiver estudando. Na rua, no trabalho, enfim, onde quer que seja. Mova sua mão para sentir os caracteres.

Em terceiro lugar, por que saber os caracteres japoneses (especialmente o Kana), é a mesma coisa que aprender a pronunciação da língua japonesa.

1.2. A HISTÓRIA DA ESCRITA NA LÍNGUA JAPONESA

Para compreendermos a origem do Hiragana e do Katakana (conhecidos conjuntamente como “Kana”), precisamos voltar no tempo e entendermos o que são Kanjis. Os Kanjis são um meio de representar diferentes conceitos materiais e abstratos através de figuras. Tal método de escrita não é incomum na história humana; basta olhar para os hieróglifos egípcios e você perceberá que o chinês não é um caso isolado.

Existem várias teorias sobre a forma como os Kanjis foram desenvolvidos, mas nenhuma é dada como certa. Uma dessas teorias nos diz que há cerca de 5000 a 6000 anos, um historiador chinês chamado Ts'ang Chieh teve a ideia de criar um modo de expressar graficamente as coisas, inspirado pelas pegadas de aves em um campo de neve. Outra teoria diz que os Kanjis foram criados quando Fu Hsi, um dos três imperadores da época, substituiu o até então existente “método das cordas” pelo “método de caracteres”. Ambas as teorias, entretanto, podem ser consideradas mais mitos do que fatos históricos confiáveis​​. O fato confiável é que os caracteres mais antigos são os que foram introduzidos durante os dias do vigésimo segundo imperador da Dinastia Shang (Yin) (1700 a.C.- 1100 a.C.) e tratavam-se de inscrições em ossos de animais e carapaças de tartaruga.

Obviamente, a forma dos ideogramas sofreu alterações ao longo do tempo. No início eram figuras mais ou menos realistas e com seu uso foram sendo simplificadas. Foi então durante a Dinastia Han (206 a.C – 211 d.C) que ocorreu a “padronização" dos ideogramas, fato que deu ao conjunto de caracteres o nome da dinastia vigente. A escrita chinesa passou então a ser conhecida como a “letra da Dinastia Han” (“Han zi” em chinês). Observe o quadro abaixo que demonstra a evolução dos ideogramas:

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Obviamente, os Kanjis não se limitavam a representar conceitos graficamente, mas também a eles eram atribuídas a pronúncia da respectiva palavra que representava o significado proposto pelo caractere. Então, podemos dizer que o sistema de Kanjis une representação gráfica e som de um conceito. Veja a figura abaixo:

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Até o século IV, o japonês era um idioma apenas falado e não possuía qualquer forma de expressão escrita. Então, aquele sistema de ideogramas que fora padronizado pouco antes na China, foi introduzido no Japão por meio de escritos trazidos por monges budistas através da península coreana, ficando conhecido como “Kanji”. No começo, somente algumas pessoas cultas eram capazes de ler aqueles ideogramas e tudo o que liam se restringia a tratados do budismo e da filosofia. Pouco depois, devido à forte relação comercial existente entre os dois países, um conselho chamado “Fuhito” foi criado pela monarquia japonesa com a tarefa de aprender a língua chinesa para que pudessem ler os documentos chineses. Somente no século VI, com o incentivo à difusão do budismo pelo príncipe Shotoku, filho da Imperatriz Suiko, o conhecimento do Kanji se espalhou pelo país. O sábio coreano Wang I ensinou o Kanji pelo Japão.

NOTA: alguns pesquisadores defendem a ideia de que já existia um "proto-alfabeto", antes da adoção dos caracteres chineses, como por exemplo, o “Kamiyo-Moji” (Escrita herdada dos deuses).

Pode-se dizer que o primeiro sistema de escrita japonesa foi o “kanbun”, que consistia na realidade em técnicas para adaptar as sentenças chinesas à gramática japonesa através do uso de sinais diacríticos juntamente com os Kanjis. Isso permitia que os falantes japoneses interpretassem essas sentenças. Tomemos como exemplo a oração em chinês “Um homem de Chu estava vendendo escudos e lanças.”:

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Já que tanto no chinês como no português tem-se o padrão gramatical [sujeito-verbo-objeto], mesmo com uma tradução literal, a frase é compreensível, com exceção da partícula final “zhe 者” (aquele que, o que), que é um nominalizador que marca uma pausa após um sintagma nominal.

NOTA: se você ficou em dúvida quanto à definição de “sintagrama”, acesse este link: http://www.mundoeducacao.com/gramatica/classificacoes-sintagma.htm.

Em japonês, entretanto, seria necessário alterar a disposição dos termos para que a sentença se encaixe dentro dos padrões da gramática japonesa. Vejamos um exemplo apenas para que você tenha uma noção básica:

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Ou, se usássemos números, teríamos:

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O uso de sinais em escritos chineses foi bom já que a sintaxe chinesa é extremamente diferente da japonesa. Posteriormente, o Kanji passou a ser usado ​​para escrever palavras japonesas, dando origem ao sistema que mais tarde será chamado de “Man’yougana” e data provavelmente do início do século V. O nome Man'yougana vem de “Man'youshuu” (万葉集), a mais antiga coleção de poemas japoneses, compilada durante o Período Nara (710-794). Acredita-se que os caracteres que compunham o Man'yougana foram colhidos nesses poemas.

A principal característica do Man'yougana é que ele utilizava um Kanji por seu valor fonético, em vez de por seu significado, isto é, Kanjis eram escolhidos de acordo apenas com sua pronúncia para representar determinado som da língua japonesa. Sendo assim, praticamente formava-se um silabário (Kana) com os Kanjis. Um mesmo som podia ser representado por numerosos Kanjis, e, na prática, os escritores elegiam aquele com significado mais adequado. O exemplo mais antigo de Man’yougana é a “espada Inariyama”, que é uma espada de aço escavada em 1968 no Inariayama Kofun, um túmulo antigo localizado em Gyouda, Saitama. Acredita-se que esta espada foi confeccionada por volta do ano 471.

Com o decorrer do tempo, o Man'yougana foi evoluindo e dando origem aos dois silabários, Katakana e o Hiragana. As formas do Hiragana originam-se do estilo cursivo da caligrafia chinesa (daí o nome “Hiragana”, isto é, “silabário da palma da mão”). A figura abaixo mostra a origem do Hiragana a partir do estilo cursivo do Man’yougana. Observe:

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A parte de cima mostra o caractere em seu formato regular, a do meio (em vermelho) mostra a forma cursiva e a parte de baixo mostra o respectivo Hiragana. Note também que as formas de escrita cursiva não são estritamente limitadas àquelas da ilustração.

Dado que, como mencionamos, vários Kanjis podiam ter o mesmo som, houve casos em que um caractere Man'yougana originou um fonema do Hiragana, mas o seu equivalente Katakana evoluiu de um Kanji Man'yougana diferente. Por exemplo, o Hiragana 「る」 (ru) se desenvolveu a partir do Man'yougana 「留」, a medida que o Katakana 「ル」 (ru) procede do Man'yougana 「流」.

Algumas teorias apontam que o Kana foi inventado por um monge budista chamado Kuukai no século IX. Kuukai certamente introduziu a escrita Siddham em seu retorno da China em 806, e o seu interesse nos aspectos sagrados da fala e da escrita levou-o a concluir que a língua japonesa seria melhor representada através de um alfabeto fonético em vez dos Kanji utilizados até então. O atual Kanamoji (conjunto de Kanas) foi codificado em 1900 e as regras para o uso, em 1946.

NOTA: Na atualidade, o Man'yougana continua sendo empregado em certos nomes regionais, especialmente em Kyushu.

Quando o Hiragana foi desenvolvido, em um primeiro momento, não foi aceito por todos, pois muitos consideravam que a língua culta ainda se restringia ao chinês. Historicamente, no Japão, a forma regular de escrita dos caracteres (kaisho) era usada pelos homens e chamada de otokode (男手), literalmente “mãos masculinas”, enquanto que o estilo cursivo (sousho) era usado pelas mulheres. Por esta razão, o Hiragana se popularizou primeiro entre as mulheres, haja vista que a elas geralmente não era permitido ter acesso aos mesmos níveis de educação que os homens. Disso veio a alternativa que ficou conhecida como “onnade” (女手), literalmente “mãos femininas”. Por exemplo, em “O Conto de Genji” e outros romances mais recentes à época cujos autores eram do sexo feminino, o Hiragana foi usado extensivamente ou exclusivamente.

Autores do sexo masculino chegaram a escrever literatura com Hiragana, que por algum tempo foi usado para a escrita não-oficial, tais como cartas pessoais, enquanto o Katakana e chinês foram usados ​​para documentos oficiais. Nos tempos modernos, o uso do Hiragana se misturou com a escrita Katakana, que agora está restrito a usos especiais, tais como palavras recentemente emprestadas (ou seja, desde o século XIX), nomes de transliteração, os nomes dos animais, em telegramas, e para dar ênfase (mais detalhes na lição 2).

Originalmente, todas as sílabas eram escritas com mais de um fonema do Hiragana. Em 1900, o sistema foi simplificado de modo que cada sílaba só tivesse um. O “outro” sistema Hiragana é conhecido como Hentaigana (変体仮名).

1.3. CONHECENDO OS FONEMAS

O Hiragana é o alfabeto básico da língua japonesa e representa todos os seus sons. Portanto, teoricamente, você pode escrever tudo em Hiragana. No entanto, como a escrita japonesa é feita sem nenhum espaço entre as palavras, isto irá criar praticamente um texto indecifrável. Abaixo, segue uma ilustração com os fonemas e os respectivos sons transcritos em Roomaji. Note que diferentemente da língua portuguesa, a ordem das vogais em japonês se dá no padrão -A, -I,- U, -E, - O.

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A tabela deve ser lida de cima para baixo e da direita para a esquerda, já que a escrita tradicional japonesa segue esse padrão. Por isso, consideram-se linhas 「ぎょう」 as colunas verticais, e colunas 「だん」 as linhas horizontais. Tenha em mente também que cada linha e coluna são nomeadas de acordo com o primeiro fonema nela disposto. Assim, por exemplo:

- a linha na qual estão dispostos os fonemas  あ, い, う, え e  お  é chamada  ぎょう  (linha A), pois o fonema que a inicia é  ;

- a coluna na qual estão dispostos os fonemas  い, き, し, ち, に, ひ, み e  り é chamada  だん  (coluna I), pois o fonema que a inicia é  ;

- os fonemas que compõem  かぎょう  são:  , , , ;

- os fonemas que compõem  えだん  são:  , , , , , ,  e  .

Guarde estes conceitos, pois serão amplamente utilizados quando tratarmos de verbos (lição 12).

A fim de facilitar o entendimento da pronúncia, dispusemos a tabela de modo que, exceto pelo 「し」、「ち」、「つ」、e 「ん」、o som de cada fonema pode ser compreendido combinando-se a consoante da linha de cima com a vogal na lateral direita. Por exemplo, 「き」 será (K) + (I) = / ki /, e 「ゆ」 será (Y) + (U) = / yu /, e assim por diante. Entretanto, não são todos os sons que funcionam com o sistema de combinação das consoantes. Como escrito na tabela, 「ち」 é pronunciado "chi" (semelhante a “tia”) e 「つ」 é pronunciado "tsu". Para ficar mais claro, assista ao vídeo abaixo:

FONTE: programa “Let’s Learn Japanese”

Agora, vamos fazer algumas considerações:

I. Preste atenção na diferença dos sons / tsu / e / su /;

II. O som “H” do japonês tem um som aspirado como nas palavras em Inglês “house” e “help”. O som “R” do japonês tem som do “R” do português parecido ao das palavras “ouro” e “aura”;

III. O caractere 「ん」 é um caractere especial porque é raramente usado sozinho e não tem um som vogal. Ele é anexado com outro caractere para adicionar um som nasal / n /. Por exemplo, 「かん」 seria 'kan' em vez de 'ka'; 「まん」 seria 'man' em vez de 'ma', e assim por diante;

IV. Por razões históricas que serão expostas na lição 3, o fonema 「を」não é pronunciado “wo”, mas sim “o” e é usado somente como partícula.

A disposição moderna do Kana reflete aquela da escrita Siddham, e é também usada para fins de ordem alfabética, isto é, 「あ、い、う、え、お、か、き、く...」 e assim por diante. Entretanto, nem sempre foi assim: até as reformas da era Meiji no século 19, a disposição dos fonemas seguia a ordem do “Iroha”, poema japonês escrito durante a era Heian (794–1179) e famoso por ser um pangrama perfeito, contendo cada caractere do silabário japonês sem repetições (com exceção do 「ん」, que foi adicionado ao silabário mais tarde). Por isso, era também usado como ordem alfabética do silabário. Vejamos:

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O iroha é encontrado ainda ocasionalmente no Japão moderno. Por exemplo, é usado para numerar assentos em teatros. Na música, o termo “iroha” é usado para nomear as notas musicais, sendo escrito em Katakana:

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Apesar de ser o estilo de escrita tradicional, a escrita vertical (たてがき) aos poucos vem caindo em desuso no dia-a-dia do mundo japonês. Esse fato se deve à influência ocidental e o advento da tecnologia, com computadores, celulares e etc. Hoje em dia, é mais comum ver este estilo de escrita em alguns poucos livros, poesias, pensamentos e trabalhos mais literários. Devido à tecnologia e a influência ocidental, o ministério da educação japonês adotou o estilo de escrita horizontal (おうぶん) como padrão em livros técnicos ou livros mais voltados para o ramo educacional.

O Hiragana não é tão difícil de dominar ou de ensinar e, como resultado, há uma variedade de web sites e programas grátis que já estão disponíveis na rede. Recomendamos que você procure por esses websites a fim de ouvir a pronúncia de cada caractere e fazer uma comparação entre a sua pronúncia e os sons para ter certeza que você está aprendendo corretamente.

1.4. A ENTONAÇÃO

Pode-se afirmar que cada som no Hiragana (e o equivalente em Katakana) corresponde a uma [vogal] ou [consoante + vogal], com exceção dos fonemas 「」 e 「」 (no Katakana) e é pronunciado com igual duração em relação aos outros. Este sistema de som faz com que a pronúncia dos fonemas seja clara e sem nenhuma ambiguidade. No entanto, a simplicidade dos sons individualmente não significa que a pronúncia de palavras seja simples. Isso por que na língua japonesa há o que é conhecido como “acento tonal” (kootei akusento), ou seja, cada silaba de uma palavra pode ser pronunciada com um tom alto ou baixo.

Apesar de variar muito dependendo do contexto ou do dialeto, existem quatro padrões básicos de entonação no japonês padrão:

I. ATAMADAKA-GATA (\_): o som começa alto, cai de repente, e então continua descendo. Como exemplo, vejamos a entonação das palavras 「うみ」 e 「いのち」 que significam “mar” e “vida” respectivamente:

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II. NAKADAKA-GATA (/\): o som agudo não está nem na primeira nem na última sílaba. Ele sobe, atinge o máximo, então cai de repente. Se for uma palavra com duas sílabas, ele cairá na próxima. Como exemplo, vejamos a entonação das palavras 「あつい」 e 「くだもの」 que significam “quente” e “fruta” respectivamente:

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III. ODAKA-GATA (/ ̄ -\-): o som agudo não está na primeira sílaba, mas está nas seguintes. É alto até atingir um elemento fixo, tal como uma partícula e desce. Como exemplo, vejamos a entonação das palavras 「はな」 e 「おとこ」 que significam “flor” e “homem” respectivamente, juntamente com as partículas 「は」 e 「が」:

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IV. HEIBAN-GATA (/ ̄ ̄): literalmente plano. Se a palavra não tem um acento tônico, a tonicidade sobe do começo ao fim. Como exemplo, vejamos a entonação das palavras 「むずかしい」 e 「あらう」 que significam “difícil” e “lavar” respectivamente:

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Estudantes estrangeiros de japonês muitas vezes não são ensinados a pronunciar o acento tonal, embora isso seja certamente um aspecto crucial na fala japonesa, porque palavras com o mesmo Kana podem ser distinguidas pelos acentos tonais diferentes. Vejamos o quadro abaixo que ilustra tal situação:

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No japonês padrão, substantivos nativos não-compostos são acentuados cerca de 30% das vezes. Em sua maioria, o acento tônico cai sobre a antepenúltima sílaba, ou sobre a primeira, em palavras mais curtas. Um número menor de substantivos é acentuado em outras sílabas. Os Keiyoushi (lição 18) são normalmente acentuados, e sempre na penúltima sílaba.

Seguir um padrão de entonação, especialmente o do japonês padrão, é considerado essencial em trabalhos como o de radiodifusão. O padrão atual de entonação está presente em dicionários especiais para falantes nativos, tais como o “Shin Meikai Nihongo Akusento Jiten” e o “NHK Nihongo Hatsuon Akusento Jiten”, e âncoras de telejornais e outros profissionais que usam a oratória devem segui-lo.

1.5. O TRAÇADO

Agora que conhecemos os 46 fonemas que compreendem o Hiragana, é essencial que saibamos como escrevê-los, pois há uma ordem e direção no traçado que devem ser seguidos. Atentar-se a isso é importante, especialmente para os Kanjis (que veremos na lição 4). Você entenderá isso quando se deparar com recados apressados de outras pessoas, que com certeza não parecerão outra coisa, se não um monte de rabiscos. A única coisa que irá ajudá-lo é que todos escrevem na mesma ordem, e o “fluxo” dos caracteres é consideravelmente consistente. Portanto, recomendamos que você preste bastante atenção na ordem e direção dos traços desde o começo para não adquirir maus hábitos.

Primeiramente, é importante memorizar a ordem correta de traçado, isto é, a sequência correta para se escrever os traços individuais de cada caractere. A regra geral é: deve-se traçar da esquerda para a direita [→] e de cima para baixo [↓]

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Outro ponto importante é saber que existem três maneiras de se finalizar um traço:

I. Tome (significa “parada”): você deve trazer o lápis para um fim completo e erguê-lo do papel no final do traço. Nos exemplos a seguir, o tome é indicado por um ponto colocado perto do último traço:

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II. Hane (significa “pulo”): o traço é finalizado com algo parecido com uma cauda curvada. Nos exemplos abaixo, o hane está indicado por um √:

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III. Harai (significa “varredura”): é feito levantando-se o lápis gradualmente no final do traço enquanto sua mão ainda está em movimento. Nos exemplos a seguir, o harai está indicado por uma seta pontilhada:

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NOTA: perceba que alguns traços não têm indicadores de finalização. Nestes casos, tanto tome ou hane podem ser usados.

A tabela seguinte mostra o método para a escrita de cada caracter hiragana. Os números e as setas indicam a ordem dos traços e o sentido respectivamente:

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Se preferir, assista ao vídeo abaixo:

NOTA: Quer praticar o traçado? Então baixe aqui folhas destinadas ao treino dos caracteres.

Já que estamos falando de traçado, há vários estilos de caligrafia no Japão, mas vamos abordar aqui os três estilos básicos. Vejamos:

1. Kaisho: literalmente significa "escrita correta". Em outras palavras, este é o estilo em que cada um dos traços é feito de um modo deliberado e claro, sendo muito semelhante à versão impressa do caractere que se pode ver num jornal. Esta é a forma que os estudantes de caligrafia aprendem primeiro, uma vez que está perto dos caracteres cotidianos escritos com os quais já estão familiarizados;

2. Gyousho: literalmente significa "escrita de viagem" e se refere ao estilo semi-cursivo da caligrafia japonesa. Como a escrita cursiva em português, este é o estilo que a maioria das pessoas costuma usar para escrever quando tomam notas, por exemplo. Além disso, as pessoas de mais idade costumam usar este estilo em seu dia a dia. Tem menos formalidade e os caracteres possuem uma aparência mais suave, mais arredondada, com os traços individuais fluindo juntos. Um texto escrito neste estilo geralmente pode ser lido pela maioria dos japoneses que estudaram;

3. Sousho: é o menos formal dos estilos e significa "escrita da grama", nome que, de acordo com o mestre calígrafo Eri Takase, refere-se ao domínio de fortes traços verticais que se assemelham à grama. O objetivo deste estilo é totalmente artístico e altamente abstrato, permitindo que o calígrafo alcance uma expressão artística completa. Devido a isso, os japoneses não usam esse estilo para escrever no dia a dia. Na verdade, é tão abstrato que só pode ser lido geralmente por pessoas treinadas em caligrafia. Aqui, quem escreve raramente permite que o pincel saia do papel, resultando em uma forma graciosa e arrebatadora.

Agora vejamos um quadro comparativo:

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Há ainda os estilos Mincho e Ming, que são os estilos normais de imprensa, o Kaku-gótico, que é utilizado em sinais, publicidade, títulos, etc., o Reisho, que era usado principalmente por escravos e as pessoas com educação limitada e hoje continua em títulos de jornais e como uma forma de escultura em pedra, o estilo Koin, que é usado na escrita religiosa e o Tensho, usado nos carimbos pessoais, de organizações, de empresas, etc. Vejamos:

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1.6. OS SONS MODIFICADOS

Uma vez que você memorizou todos os caracteres do Hiragana, você acabou de aprender o alfabeto, mas não todos os sons. Há mais cinco sons consonantais que são possíveis de se obter de dois modos:

I. Colocando-se duas linhas pequenas parecidas com as aspas no canto superior direito de alguns fonemas. Tais linhas são chamadas de 「だくてん」;

II. Colocando-se um pequeno circulo no canto superior direito de alguns fonemas. Tal sinal é chamado de 「はんだくてん」.

Isto essencialmente cria um som modificado da consoante – tecnicamente chamada uma consoante sonora ou 「にごり」, que literalmente significa “tornar-se lamacento”.

Todas as possíveis combinações dos sons modificados são dadas na tabela abaixo:

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NOTAS:

1. Os caracteres 「ぢ」 e 「づ」 têm a mesma pronúncia que 「じ」 e 「ず」, respectivamente. Porém, 「じ」 e 「ず」 são usados com maior frequência;

2. Na transcrição para o Roomaji, 「づ」 é escrito /dzu/ e não /zu/. Com relação aos caracteres 「ぢ」 e 「じ」, a escrita permanece a mesma, ou seja, /ji/.

1.7. OS 「や」、「ゆ」 E 「よ」 PEQUENOS

É possível também combinar alguns fonemas de  いだん  com um som / ya / yu / yo / colocando do seu lado direito um pequeno 「や」、「ゆ」、ou 「よ」. Tal fenômeno é chamado 「ようおん」:

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NOTAS:

1. A tabela acima é a mesma que as anteriores. Combine as consoantes de cima com o som da vogal da direita. Ex:  きゃ = kya;

2. Em alguns métodos é possível que se encontre combinações como 「ぢゃ」、「ぢゅ」 e 「ぢょ」. Porém, não são nunca usadas; no lugar é sempre usado 「じゃ」、「じゅ」、e 「じょ」;

3. Note que como 「じ」 é pronunciado / ji /, todos os pequenos sons 「や」、「ゆ」、「よ」 são também baseados nisso; em outras palavras ficarão / jya / jyu / jyo /;

4. O mesmo se aplica para o 「ち」 que se torna / cha / chu / cho / e 「し」 que se torna / sha / shu / sho /.

1.8. O 「つ」 PEQUENO

O fonema 「つ」 nem sempre deve ser lido como /tsu/; em certas palavras ele aparece entre dois caracteres e menor do que eles. Nestes casos, é chamado de 「そくおん」, literalmente “som oclusivo”.

Mas qual a sua finalidade? Observe o exemplo abaixo:

か = escritor

Note que 「つ」 aparece entre os fonemas 「さ」 e 「か」, mas em tamanho menor. Quando isso ocorrer, ele não deve ser pronunciado. O 「つ」 pequeno tem como principal finalidade representar uma pausa antes da pronuncia do fonema que o sucede. Na pratica, é basicamente a pausa que se faz “já com a língua no céu da boca” antes de seguir para uma nova sílaba.

Dividiremos pronúncia de 「さっか」 em tempos para que você entenda melhor como funciona essa pequena pausa:

「さ」– 1º tempo;

「っ」– 2º tempo: “comece” a pronunciar o próximo fonema e então faça uma pequena pausa “já com a língua no céu da boca”;

「か」– 3º tempo: “termine” de pronunciar o fonema que segue o 「つ」 pequeno.

Na transcrição para o Roomaji, o 「そくおん」 é representado pela duplicação da consoante da sílaba que o precede – por isso também é conhecido como “consoante germinada”. Observe alguns exemplos:

「さっか」– deve ser romanizado “SAKKA” e não “satsuka” ou “saka”, pois o fonema que precede o 「そくおん」 é “KA”, logo, a consoante “K” será duplicada;

「はっぱ」– deve ser romanizado “HAPPA” e não “hatsupa” ou “hapa”, pois o fonema que precede o 「そくおん」 é “PA”, logo, a consoante “P” será duplicada;

NOTAS

1. Preste atenção na pronúncia de palavras nas quais o 「そくおん」 está presente, pois isto pode alterar o significado de palavras aparentemente iguais. Por exemplo,「もと」 e 「もと」 possuem significados diferentes;

2. Certifique-se que você está fazendo esta parada com a consoante certa (a consoante do segundo caractere);

3. O 「そくおん」 indica também que uma sentença termina abruptamente, funcionando como um ponto de exclamação. Por exemplo, 「だまれ」 (cale a boca!).

1.9. O SOM PROLONGADO

Ufa! Estamos quase terminando. Nesta última parte, veremos o “som prolongado”, que consiste no prolongamento da duração do som de um caractere. Para tanto, basta colocar 「あ」、「い」 ou 「う」 dependendo da coluna 「だん」 a que o caractere pertença. Observe a tabela a seguir:

Como exemplo, vamos criar o som prolongado de 「か」. Para tanto, primeiramente devemos saber a qual coluna 「か」 pertence:

Agora, sabemos que 「か」 pertence à  だん, portanto, de acordo com a regra, o fonema que usaremos para estender seu som é 「あ」.

A razão disto é bem simples: tente dizer 「か」 e 「あ」 separadamente. Então fale sucessivamente e o mais rápido possível. Você logo perceberá que estará estendendo o / ka / por uma duração mais longa que dizer somente / ka /. Você pode tentar este exercício com as outras vogais. Tente lembrar, que na verdade, você está pronunciando dois caracteres com seus limites embaçados. Na verdade, você pode nem estar pensando conscientemente sobre vogais longas e simplesmente pronunciar as letras juntas rapidamente para conseguir o som correto. Em particular, enquanto que / ei / pode ser considerado som vogal prolongado, eu acho que a pronúncia sai bem melhor simplesmente pronunciando / e / e / i /.

NOTAS:

1. Há um número pequeno de palavras em que o prolongamento de fonemas de えだん se dá através da adição de 「え」 e não 「い」→ おねえさん  (irmã mais velha);

2. Por razões históricas, há também um pequeno número de palavras em que o prolongamento de fonemas de  おだん  se dá pela adição de 「お」 e não 「う」→ とお  (dez).

É importante você se certificar que a vogal é prolongada o suficiente porque você pode estar dizendo coisas como “aqui” (ここ) em vez de “Ensino Médio” (こうこう) ou “mulher de meia-idade” (おばさん) em vez de “avó” (おばあさん) se você não esticar corretamente!


Fontes:

Imabi: http://www.imabijapaneselearningcenter.com/

Wikipedia: http://en.wikipedia.org/wiki/Main_Page

Otaku Project: http://op.xisde.org/

Digitoshi: www.digitoshi.xpg.com.br

Guide to Japanese (Tae Kim): http://www.guidetojapanese.org/learn/grammar

sci.lang.japan Frequently Asked Questions: http://www.sljfaq.org/afaq/afaq.html

Kei Sensei: https://sites.google.com/a/keisensei.com/kei-sensei/

Let's Learn Hiragana: First Book of Basic Japanese Writing, Yasuko Kosaka Mitamura


8 comentários:

  1. Muito bom, uma das melhores explicações que já vi.

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  2. Claro, objetivo e didático. Coisas que eu não entendia estão, finalmente, fazendo sentido

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  3. Parabéns,vc sabe explicar direitinho estou aprendendo muito aqui.

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  4. Procurei muitos cursos de japonês para poder estudar em casa e finalmente achei esse blog maravilhoso e super didático! Adorei! Parabéns!

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  5. Caramba, tem realmente uma quantidade incrível de conteúdo da língua, deve ter dado um trabalhão e tanto. Parabéns, tudo muito bem explicado.

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